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2º dia do Encontro Regional da IEAL debate desafios da educação na América Latina

Inteligência artificial, comunicação estratégica e aplicação da Convenção 190 mobilizam educadoras em defesa de direitos, democracia e escolas livres de violência

Publicado: 04 Março, 2026 - 18h13 | Última modificação: 04 Março, 2026 - 19h31

Escrito por: CNTE | Editado por: CNTE

Foto: Geovana Albuquerque/CNTE
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No segundo dia do Encontro Regional da REDE de Trabalhadoras da Educação da Internacional da Educação para a América Latina (IEAL), a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Fátima Silva, fez um discurso potente marcado por um posicionamento político firme e reflexões sobre participação feminina e conjuntura internacional.

Fátima se definiu como uma “realista esperançosa” e evocou Paulo Freire ao afirmar que é preciso “conjugar o verbo esperançar”. Destacou o esforço coletivo que garantiu a ampla participação de mulheres de diferentes países da América Latina e agradeceu a articulação das entidades sindicais e o apoio institucional que viabilizou o encontro.

A presidenta também situou o debate no contexto geopolítico. “Nós somos mulheres pela paz”, afirmou, posicionando-se contra intervenções estrangeiras e guerras. Criticou a política externa dos Estados Unidos e a atuação de Israel no conflito com o povo palestino, defendendo que “não tem guerra santa” e que a defesa da vida deve ser princípio inegociável. Ao final, conduziu a plenária em duas palavras de ordem: “Somos pela paz” e “Sem anistia para golpista”.

Gabriela Bonilla, diretora da IEAL, reforçou o protagonismo feminino na discussão sindical e política: “Aqui, a nossa reunião regional da Rede de Mulheres deixou claro que o olhar das mulheres sindicalistas continua sendo insubstituível na discussão em defesa da paz, contra todas as invasões imperialistas, contra as guerras e contra o crescimento do investimento militar”, afirmou.

Ela acrescentou: “Somos nós, mulheres trabalhadoras da educação, que estamos cuidando todos os dias dos direitos dos povos para garantir não apenas educação pública, mas também orçamentos públicos capazes de sustentar as políticas públicas. Temos governos que estão muito confortáveis destinando recursos para a militarização, para maior repressão, e deixando vazio o orçamento das políticas públicas, especialmente da política educacional”.

Gabriela destacou ainda que “essas discussões que realizamos aqui são debates que continuaremos promovendo para pensar estratégias de ação em nossos países, em nível nacional”. Aproveitou para lembrar que a Conferência Mundial de Mulheres da Internacional da Educação também acontecerá na Bahia, em setembro, entre os dias 14 e 17. “A Bahia será, então, a casa e a sede de mais um grande debate mundial de mulheres sobre os rumos de nossas agendas sindicais na defesa do direito à educação e, sobretudo, na defesa da democracia. Sem democracia, nossos povos nunca terão acesso à educação pública de que tanto precisamos”.

Reflexões políticas e participação feminina no centro do debate

O dia de evento foi marcado por quatro mesas de debate que aprofundaram temas centrais para o movimento sindical docente: Regulação estratégica da inteligência artificial no setor educacional; Comunicação estratégica para mobilizar e organizar as educadoras e educadores e as comunidades educativas; Setor educativo como um espaço de trabalho livre das violências - Convenção 190 e aplicações; e O elemento político da identidade racial e étnica como fator de organização e mobilização.

Reflexões políticas e participação feminina no centro do debate

O dia de evento foi marcado por quatro mesas de debate que aprofundaram temas centrais para o movimento sindical docente: Regulação estratégica da inteligência artificial no setor educacional; Comunicação estratégica para mobilizar e organizar as educadoras e educadores e as comunidades educativas; Setor educativo como um espaço de trabalho livre das violências - Convenção 190 e aplicações e O elemento político da identidade racial e étnica como fator de organização e mobilização.

 

As discussões reuniram pesquisadoras, dirigentes sindicais e especialistas de diferentes países da América Latina, evidenciando que os desafios vividos nas escolas estão conectados a processos estruturais, políticos e sociais mais amplos.

 

Mesa 1 | Regulação estratégica da inteligência artificial mobiliza educadoras e sindicatos

 

A Mesa 1 abordou o tema “Regulação estratégica da inteligência artificial”, reunindo Diana Santos Souza (UFBA) e Salete Cordeiro (UFBA) e Sofia Scarcerra (assessora internacional em regulação tecnológica).

 

Abrindo o debate, Diana Santos Souza defendeu que o primeiro passo para enfrentar os impactos da inteligência artificial (IA) é compreender seus conceitos estruturantes. “Precisamos nomear os fenômenos: dataficação, plataformização e algoritmização. Se não levantarmos esses problemas, ninguém levantará por nós”, afirmou.

 

Ela alertou para riscos como a coleta massiva de dados de estudantes menores de idade, a erosão da autonomia pedagógica por algoritmos e a avaliação de docentes com base em métricas comerciais de plataformas digitais. Também destacou o perigo do “colonialismo tecnológico” e a necessidade de participação ativa da sociedade civil em espaços institucionais de regulação.

 

Salete Cordeiro ressaltou que o debate não parte do zero e que o Brasil já possui marcos regulatórios importantes, como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados. Entre as reivindicações sindicais urgentes, apontou o direito à formação continuada em horário de trabalho, a proibição de decisões automatizadas sem revisão humana no setor educacional e o direito à desconexão digital. “O direito à desconexão também é um direito feminista, diante da sobrecarga de tarefas digitais que recaem sobre as mulheres”, pontuou.

 

Encerrando a mesa, Sofia Scarcerra destacou a dimensão política do tema. “Não é momento de pânico, é momento de alfabetização”, afirmou, defendendo que sindicatos transformem preocupações em pautas concretas de negociação coletiva e incidência política. Para ela, é preciso “ocupar-se” do debate, formando docentes e estudantes para uma relação crítica com as tecnologias.

 

Como conclusão o grupo sistematizou estratégias de ação sindical e acadêmica, entre elas: intensificar o debate sobre IA dentro dos sindicatos; cobrar direitos dos trabalhadores que produzem conteúdo e alimentam sistemas de inteligência artificial; fortalecer a articulação regional e nacional; e garantir participação ativa das educadoras na construção de uma IA comprometida com a justiça social. A principal conclusão foi que a inteligência artificial é um campo de disputa política e que a organização coletiva será decisiva para assegurar que seu desenvolvimento esteja a serviço dos direitos e da democracia.

 

Mesa 2 | Comunicação estratégica para mobilizar e organizar

 

A segunda mesa debateu o tema “Comunicação estratégica para mobilizar e organizar educadoras, educadores e comunidades educativas”. A atividade contou com a participação de Gabriela Bonilla, diretora da IEAL; Daniela Muñoz; Lilia López (CTERA) e da bailarina Angela María dos Santos.

 

Gabriela Bonilla destacou a importância da disputa de narrativas no contexto atual. “Temos que aprender a construir narrativas que também ganhem terreno para combater os discursos contra nós. Precisamos aprender a nos comunicar com quem é filiado, mas não é militante, com quem está desiludido”, afirmou.

 

Daniela Muñoz chamou atenção para a fragmentação social. “Outros movimentos sociais deveriam ser aliados naturais dos sindicatos. Hoje vivemos em uma sociedade muito fracionada, cada um focado na sua própria luta”, observou. Segundo ela, a comunicação precisa ocupar múltiplos espaços, “desde as redes sociais e os meios de comunicação até a arte e as conversas do dia a dia”.

 

Lilia López ressaltou a centralidade da comunicação para a defesa da educação pública. “Precisamos priorizar a comunicação estratégica como ferramenta essencial para defender o direito à educação pública”, disse. Ela também alertou para o desafio da sobre-informação (excesso de dados recebidos, tornando difícil filtrar o que é relevante para tomar decisões): “Nem tudo o que publicamos é lido. Precisamos priorizar temas e conceitos para chegar ao nosso público”.

 

Angela María dos Santos trouxe uma reflexão sobre a relação entre base e sindicato. “Às vezes o professor sente que o sindicato é o inimigo. Não podemos falar apenas dentro da nossa bolha”, afirmou. Para ela, a presença precisa ser permanente: “Se os sindicatos só aparecem quando as coisas vão mal ou durante eleições, não conseguiremos promover mudanças”.

 

As participantes concluíram que a comunicação sindical deve ser estratégica, contínua e multicanal, fortalecendo alianças e aproximando o sindicato da base. Também apontaram a necessidade de formação em comunicação, definição de objetivos claros e construção de narrativas que dialoguem com diferentes públicos, inclusive aqueles que se sentem distantes da militância.

 

Mesa 3 | Convenção 190 e enfrentamento às violências no setor educativo

 

A terceira mesa, com o tema “Setor educativo como espaço de trabalho livre das violências – Convenção 190 e aplicações”, reuniu Alejandra Pereira, integrante do Comitê Regional da IEAL; Alda Muniz Pepe, da UNCME e teve condução de Maritza Rojas.

 

Abrindo a discussão, Alejandra Pereira contextualizou a realidade uruguaia e seus impactos nas escolas. “Em apenas cinco anos retrocedemos mais do que havíamos avançado em 15 anos de ampliação de direitos e cobertura social”, afirmou, ao comparar o cenário atual com períodos anteriores.

 

Ela relatou o aumento da pobreza infantil, o crescimento do narcotráfico em bairros vulneráveis e o avanço de agressões dentro das escolas. “Famílias entravam e agrediam professoras. Diante disso, o sindicato aprovou uma paralisação automática de 24 horas sempre que um docente fosse agredido”, contou.

 

Alejandra também rejeitou propostas de militarização como solução. “A polícia não é um lugar que tem que estar na escola. A escola deve ser espaço de consenso, de paz e de diálogo”, declarou. Ao tratar da Convenção 190, reforçou: “Temos leis maravilhosas no papel, mas precisamos estar atrás delas para que se cumpram”.

 

Alda Muniz Pepe trouxe a realidade brasileira, destacando que a violência não vem apenas de fora da escola. “Os setores educativos não estão absolutamente a salvo das violências. A violência ainda é uma constante na escola”, afirmou. Ela apontou problemas estruturais, como prédios inadequados, ambientes pouco ventilados e condições sanitárias precárias.

 

Também criticou o modelo avaliativo e a responsabilização individual de docentes pelos resultados. “A avaliação virou uma arma”, disse. Para ela, a desvalorização profissional é uma forma de violência: “Não valorizar o trabalhador é uma violência”. Citou salários insuficientes, ausência de planos de carreira e contratações temporárias precárias como exemplos de precarização.

 

Maritza Rojas aprofundou o debate sob a perspectiva de gênero. “As violências que sofremos não começaram ontem. São violências estruturais”, afirmou. Ela destacou a dupla e tripla jornada das mulheres, a sobrecarga digital e a dificuldade de desconexão. “Nos ensinaram que ‘caladinhas somos mais bonitas’. Isso dificulta a denúncia”, refletiu.

 

Maritza também enfatizou que a violência se manifesta de maneira distinta conforme raça, classe e condição social, e explicou que a Convenção 190 amplia o conceito de violência para além do físico, incluindo dimensões psicológicas, sexuais e econômicas, inclusive em ambientes virtuais e no trajeto ao trabalho.

 

As conclusões foram apresentadas por Deumeires Moraes, presidenta do FETEMS, que relatou a sistematização dos grupos de debate.

 

Segundo ela, todas as unidades escolares apresentam situações de violência e todas as educadoras e educandas já sofreram algum tipo de violência. “Na maioria dos estados e países não existe um protocolo oficial contra a violência às mulheres”, destacou. No Brasil, afirmou, a Convenção 190 ainda é desconhecida pela maioria das educadoras e entidades sindicais, enquanto na Argentina já foi adotada e no Chile há um processo mais avançado de implementação.

 

A partir dessa análise, o grupo apresentou propostas concretas: garantir a aplicabilidade das leis existentes com responsabilização dos culpados; ampliar a divulgação da Convenção 190 por meio dos sindicatos; construir protocolos institucionais de prevenção e enfrentamento; fortalecer a formação das educadoras sobre os diferentes tipos de violência — psicológica, institucional, organizacional, de gênero e digital — e pressionar os Estados para que assumam sua responsabilidade na criação de ambientes de trabalho seguros.

 

Mesa 4 – Identidade racial como elemento político de organização e mobilização

Encerrando a programação do segundo dia do Encontro Regional da REDE de Trabalhadoras da Educação da Internacional da Educação para a América Latina (IEAL), a Mesa 4 debateu a identidade racial e étnica como dimensão política da organização sindical e da mobilização das mulheres no continente.

Com participação  de Victoria Avendaño (FECODE); Talamira Taita de Brito (UESB) e Jaqueline Santos de Souza (UFBA), o debate articulou racismo estrutural, luta de classes, patriarcado e ausência de políticas públicas efetivas. As intervenções destacaram que a discriminação racial tem território, tem classe social e impacta diretamente a valorização profissional e as condições de vida das mulheres, especialmente negras e indígenas.

“Ser negra em uma sociedade racista não é fácil”, afirmou Jaqueline, ao abordar como o racismo atravessa desde a infância até a vida profissional, influenciando processos de identidade, representação e permanência nos espaços de poder.

A mesa reforçou que a educação antirracista, a formação sindical e a ampliação da representatividade são caminhos centrais para enfrentar as desigualdades e fortalecer a organização coletiva na América Latina.

Na conclusão, a proposta de Jaqueline foi romper com “os mesmos ritmos de apresentações acadêmicas frias que focavam no currículo Lattes”, priorizando que as próprias mulheres falassem por si mesmas. O debate foi construído a partir de questionamentos dirigidos às participantes, estimulando diálogo e reflexão coletiva.

Para evidenciar desigualdades de acesso e representatividade, Jaqueline conduziu uma dinâmica com perguntas ao público: quem estudou em escola pública, quem atua na educação básica, quem cursou universidade pública, quem foi bolsista, quem é ou foi representante sindical, quem preside sindicato, quem domina segunda língua, quem tem mestrado ou doutorado, quem ocupa ou ocupou cargos de gestão ou representação política.

A partir das respostas — visíveis nas mãos erguidas — ela ressaltou que os dados revelam a concentração de determinados espaços de poder e decisão, especialmente quando se observa o recorte racial. Destacou que, quanto mais retinto o tom de pele, menores são as oportunidades de ocupar posições de poder e representatividade.

O segundo dia do encontro reforçou que os desafios enfrentados pelas trabalhadoras da educação — seja diante das novas tecnologias, da disputa de narrativas ou das múltiplas formas de violência — exigem organização coletiva, articulação regional e incidência política permanente. A defesa da educação pública e de condições dignas de trabalho passa, necessariamente, pela construção de espaços livres de violência, democráticos e socialmente justos.