Elas moveram fronteiras: poder feminino e as fissuras da democracia latino-americana
O protagonismo feminino na política latino‑americana avança, mas enfrenta ataques, vigilância e as fissuras de um sistema que ainda resiste a dividir poder
Publicado: 19 Fevereiro, 2026 - 09h30
Escrito por: CNTE | Editado por: CNTE
Por muito tempo, o poder na América Latina carregou rostos masculinos, mas, nas últimas duas décadas, o continente assistiu a algo novo e profundamente transformador: mulheres chegaram à presidência de países marcados por autoritarismo recente, desigualdade social persistente e estruturas patriarcais.
Não foi uma ascensão suave. Cada vitória abriu portas, mas também trouxe ondas de resistência, tentativas de deslegitimar mandatos, campanhas de desinformação e ataques com claros recortes de gênero: quando mulheres assumem o topo, o sistema é posto à prova.
Esse movimento, segundo a cientista política Vanilda Chaves, que pesquisa cotas de gênero, democracia paritária na América Latina, financiamento eleitoral e trajetória de legisladoras, revela um processo mais profundo: “A presença de mulheres no centro das decisões expõe tensões estruturais das democracias latino-americanas. São democracias que avançaram no voto, na institucionalidade, mas que ainda não incorporaram plenamente o princípio da igualdade política entre homens e mulheres”.
Ela explica que esses avanços sempre caminham ao lado de tentativas de contenção: “As mulheres que chegam ao poder são constantemente testadas. Seus mandatos são marcados por vigilância ampliada, questionamentos sobre competência e ataques que, muitas vezes, não recaem sobre seus projetos políticos, mas sobre sua presença enquanto mulheres em espaços historicamente masculinos”.
O enfrentamento às mulheres no poder não é apenas simbólico. Um estudo recente da América Latina detalha como essa violência se organiza em ciclos — do mapeamento à institucionalização — e mostra os mecanismos que ameaçam líderes femininas.
Nesta reportagem especial, revisitamos as trajetórias de cinco líderes que reescreveram a história política do continente: Claudia Sheinbaum (México), Xiomara Castro (Honduras), Cristina Fernández de Kirchner (Argentina), Dilma Rousseff (Brasil) e Michelle Bachelet (Chile) e revelamos como suas jornadas iluminam não apenas o avanço democrático, mas também seus limites.
O recente triunfo de Claudia Sheinbaum no México, primeira mulher eleita presidenta do país, oferece o gancho ideal para revisitar essas histórias sob um olhar contemporâneo.
Vanilda reforça que a ascensão dessas lideranças precisa ser entendida dentro de um processo mais amplo: “A democracia paritária na América Latina não se limita apenas a garantir mais mulheres eleitas. Ela exige transformar as regras do jogo político — financiamento, estrutura partidária, cultura institucional — para que mulheres possam disputar em condições minimamente equitativas”.
Em suas pesquisas, ela identifica padrões recorrentes:
- mulheres recebem menos recursos de campanha, o que limita sua competitividade;
• enfrentam resistências internas dentro dos partidos, especialmente em estruturas hierárquicas;
• sofrem ataques com base em estereótipos de gênero, que questionam sua legitimidade, moralidade ou capacidade de liderança;
• são pressionadas a performar papéis tradicionais, mesmo quando ocupam cargos de alta autoridade;
• têm sua trajetória constantemente comparada à dos homens, como se precisassem provar o dobro para receber metade do reconhecimento.
Vanilda afirma que essas dinâmicas ficaram nítidas nos mandatos de Dilma, Cristina e Bachelet. “Quando analisamos essas trajetórias, percebemos que o que se enfrenta não é apenas a política institucional, mas um conjunto de expectativas sociais que ainda associam poder ao masculino. Isso produz fissuras profundas nas democracias latino-americanas, que ainda não se acostumaram com o poder compartilhado”.
Para a escritora e ativista feminista antirracista Schuma Schumaher, autora do livro Mulheres no Poder, o avanço da presença feminina na política latino-americana é resultado direto da resistência das mulheres diante de um cenário ainda marcado por ameaças conservadoras e violência de gênero. “O que mais me chama atenção é que, apesar de tantas ameaças, de uma onda conservadora que usa as mulheres para ‘defender as famílias’, de alguns retrocessos, as mulheres da América Latina seguem resistindo e abrindo veredas.
Há uma nova geração de lideranças que já nasce com consciência feminista e antirracista, que fala de poder compartilhado, de bem viver, de sustentabilidade e justiça social. Mesmo diante da violência política e da misoginia, seguimos transformando o modo de fazer política”, afirma.
Segundo Schuma, o poder feminino ainda provoca incômodo porque desmonta estruturas que sempre foram pensadas para os homens mandarem e as mulheres obedecerem. “O patriarcado não aceita dividir o poder, ele entende o mundo público como propriedade masculina e um espaço dos homens. Quando uma mulher chega lá, ela rompe essa lógica e expõe o que muitos ainda não suportam: que somos cidadãs plenas, competentes, com direito a decidir, a comandar e a ser respeitadas. Quando exercemos poder com autonomia, ética e compromisso coletivo, desafiamos um sistema inteiro que se alimenta da nossa subordinação”, explica.
Ao analisar as experiências de lideranças como Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Michelle Bachelet, a escritora afirma que as trajetórias dessas mulheres escancaram o limite das democracias patriarcais. “Elas foram julgadas não por seus atos políticos, mas por serem mulheres que ousaram ocupar o espaço do mando. Isso revela o limite das democracias patriarcais, quando o poder muda de rosto e de corpo, o sistema reage”, diz.
Schuma também aponta que a violência política de gênero segue sendo um dos principais obstáculos à participação feminina plena. “As instituições ainda são dirigidas por homens e moldadas pela lógica machista. A violência política de gênero é tratada como ‘exagero’ ou ‘mimimi’, quando na verdade é uma forma de manter as mulheres fora do jogo. Falta vontade política, mas também uma cultura democrática que entenda o poder como um bem comum e não como propriedade masculina.”
Sobre o marco histórico da eleição de Claudia Sheinbaum, no México, Schuma destaca o simbolismo e o desafio que esse momento representa. “Num México que lidera índices de feminicídio, a vitória de uma mulher, cientista, progressista, traz enormes desafios e carrega um grande simbolismo. Mas também é um teste de até onde um governo liderado por uma mulher poderá enfrentar as violências e as estruturas de poder que o próprio Estado reproduz? O desafio é imenso, mas a esperança também.”
Para ela, a representatividade tem peso determinante na transformação social. “Quando uma menina vê uma mulher negra, indígena ou trans em um cargo de poder, algo muda no imaginário coletivo. Mulheres no Poder fala exatamente de como a presença transforma a história. A representatividade não é um detalhe, é uma chave para abrir portas que estiveram trancadas por séculos.”
Ao refletir sobre o futuro, Schuma reforça que a mudança depende de uma nova cultura política. “É preciso mudar a cultura política, o financiamento das campanhas, as regras do jogo e o modo como o poder é exercido. Queremos deixar de ‘ocupar espaços’ e passar a construir outros modos de poder. Estamos num tempo de travessia. Entre o velho poder que insiste em nos calar e o novo que estamos gestando, plural, coletivo, feminista, antirracista, anticapacista, antilesbotransfóbico e para todas as gerações. Essa luta é por todas nós, mas também por uma democracia viva, que reconheça o valor da vida, do cuidado e da justiça social.”
Conversamos também com a dirigente sindical e educadora Sonia Alesso, secretária-geral da CTERA, que reforça que as conquistas das mulheres na política latino-americana foram construídas em meio a enfrentamentos históricos. Segundo ela, “muitas mulheres que pertenciam a organizações sindicais, sociais e feministas somam à luta por mais direitos para o povo, porque vem de um período de ajuste que marcaram os anos 1990 na Argentina e na região.”
Alesso lembra que a chegada de Cristina Fernández de Kirchner ao poder simbolizou mais do que uma vitória eleitoral. “Cristina foi a primeira mulher Presidenta da Argentina e encarnou os sonhos e utopias de milhares de militantes que lutaram contra a ditadura e o ajuste neoliberal. As leis de Educação, o casamento igualitário e a lei de identidade de gênero representaram avanços que eram defendidos nas ruas e que se transformaram em direitos sociais e políticos.”
Ela destaca que presidentas como Dilma Rousseff, Michelle Bachelet e Cristina Kirchner enfrentaram ataques que ultrapassaram a disputa política tradicional. “Elas sofreram ataques não só por seus pensamentos políticos, mas também por suas condições de mulheres que representaram ideais progressistas na região. A perseguição que sofreram foi particularmente violenta, misógina e machista.”
Esse processo, ela afirma, teve impacto profundo nas mulheres que as viam como referência: “Isso não afetou apenas elas, mas milhares de militantes que se viam refletidas nessas mulheres, que alcançando a máxima autoridade de um país podiam falar como nós e demonstrar que era possível representar nosso povo.”
Para Alesso, ainda há muitos desafios. Ela cita a atuação da Rede de Mulheres Trabalhadoras em Educação da América Latina, promovida pelo Comitê Regional da Internacional da Educação para a América Latina (IEAL) como espaço estratégico de formação e fortalecimento político. “Acreditamos que articular as lutas, nos formar e compartilhar experiências das docentes da América Latina nos fortalece para continuar a luta por nossos direitos.”
Ela conclui dizendo: “As mulheres têm a responsabilidade de ampliar o debate político, fortalecer as lutas e construir uma unidade desde baixo para impedir que as direitas triunfem. Está em jogo a democracia, os direitos humanos, a educação pública, a proteção do ambiente e a paz na nossa região. Não tenho dúvidas de que precisamos construir um presente e um futuro melhor para nossos povos.”
Claudia Sheinbaum: Da ciência à Presidência — a jornada rumo ao Poder
No México, onde sete mulheres são assassinadas por dia e o feminicídio tornou-se uma ferida nacional, a ascensão de Claudia Sheinbaum à presidência, em 2024, foi mais do que uma vitória eleitoral: representou uma ruptura cultural. Cientista, doutora em engenharia ambiental e pesquisadora com carreira internacional, Sheinbaum chegou ao poder fora da lógica tradicional das elites políticas, apoiada na credibilidade técnica, na defesa de políticas públicas baseadas em evidências e em um vínculo histórico com movimentos sociais e ambientais.
Filha de acadêmicos e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que recebeu o Nobel da Paz coletivo, Sheinbaum construiu sua trajetória pública a partir da combinação entre conhecimento científico e compromisso social. À frente do governo da Cidade do México, demonstrou que gestão pública e visão social podem caminhar juntas, adotando políticas de mobilidade sustentável, segurança pública orientada por dados e ampliação de direitos sociais. Sua formação acadêmica moldou um estilo de governo marcado pelo planejamento, pelo pragmatismo e por um discurso menos emocional, em um país historicamente atravessado por conflitos, violência e instabilidade política.
Esse perfil técnico e racional passou a ganhar ainda mais relevância no plano nacional. Desde que assumiu a presidência, os indicadores de segurança e aprovação popular colocaram Sheinbaum no centro do debate político. Sua popularidade alcançou 85% entre os mexicanos, um patamar sem precedentes, impulsionado tanto pela postura firme na relação com os Estados Unidos quanto por resultados concretos na área da segurança. Um dos dados mais simbólicos foi a queda de 40% nas apreensões de fentanil em território americano, que, segundo a própria presidente, com base em dados dos EUA, está diretamente associada ao reforço das ações de combate ao tráfico no México — um dos principais pontos de pressão do governo Trump.
No campo interno, os efeitos dessa estratégia também aparecem nas estatísticas. Em nível nacional, os homicídios caíram 16%, acompanhados pela apreensão de dezenas de toneladas de fentanil, pela destruição de laboratórios clandestinos e pela prisão de chefes do narcotráfico. Sheinbaum aposta na ampliação do modelo aplicado quando foi prefeita da capital, período em que a incidência de crimes caiu 58% e os homicídios dolosos foram reduzidos em 51%. Ainda que a violência siga como um problema estrutural e crônico, esses números ajudam a sustentar a narrativa de que sua gestão imprime um novo ritmo à política de segurança e explicam, em parte, o amplo apoio popular de que ela desfruta.
Ao mesmo tempo, sua ascensão ocorre em um ambiente profundamente contraditório: se sua vitória simboliza um avanço histórico para as mulheres, sua liderança segue sendo permanentemente testada por expectativas patriarcais e pela herança de violência política de gênero que marca o país.
Linha do tempo
1962 — Nasce na Cidade do México (México)
2000 — Secretária do Meio Ambiente da capital
2007 — Contribui para o Nobel da Paz do IPCC
2018-2023 — Primeira mulher governante da Cidade do México
2024 — Primeira presidenta do México
Xiomara Castro: Do golpe ao comando: a insurgente que virou presidente
Xiomara Castro emerge como figura política em um dos momentos mais traumáticos da história recente de Honduras, o golpe de 2009 que destituiu o então presidente Manuel Zelaya, seu marido. De primeira-dama discreta, ela se transformou em líder nacional ao ocupar as ruas, articular resistências e enfrentar um aparato militar, midiático e político disposto a silenciar vozes femininas no poder. Sua trajetória nasce do colapso democrático e justamente por isso carrega a marca da insurgência.
Ao cofundar o partido LIBRE, Castro deu forma institucional ao clamor das ruas e ergueu uma plataforma política centrada em justiça social, inclusão e soberania popular. Tentou a presidência, perdeu, foi ridicularizada por setores políticos e midiáticos, e voltou a disputar até vencer, em 2021, com discurso de restauração democrática e combate à violência sistêmica que assolava o país.
Sua administração enfrenta dilemas profundos, um Estado permeado pelo crime organizado, instituições fragilizadas e um cenário regional que frequentemente marginaliza mulheres no poder. Castro governa sob supervisão permanente e com resistência aberta de elites políticas que sempre comandaram o país. Ainda assim, sua liderança simboliza um divisor de águas, pois o poder feminino não chegou por consenso, mas pela luta.
A trajetória de Xiomara Castro revela o quanto a democracia latino-americana avança pela insistência e como o gênero nunca deixa de ser arma política para deslegitimar mulheres que rompem cercas historicamente masculinas.
Linha do tempo
1959 — Nasce em Tegucigalpa (Honduras)
2009 — Lidera manifestações contra o golpe
2011 — Cofunda o partido LIBRE
2013 — Primeira candidatura presidencial
2021 — Primeira presidenta de Honduras
Cristina Fernández de Kirchner: poder, enfrentamento e a batalha pela narrativa
Cristina Fernández de Kirchner, advogada, militante estudantil no pós-ditadura e líder política com trajetória longa ao lado do peronismo (movimento político que combina elementos de justicialismo, nacionalismo, trabalhismo e populismo), Cristina alcançou a presidência em 2007 e tornou-se a primeira mulher reeleita na Argentina. Sua passagem pelo governo deixou marcas: expansão universitária, políticas de proteção social, integração regional e enfrentamento intenso com conglomerados midiáticos e financeiros.
Ao mesmo tempo, Cristina transformou a política argentina em arena permanente de disputa narrativa. Enfrentou processos judiciais controversos, atentado frustrado, campanhas de difamação e um escrutínio que muitas vezes ultrapassou as fronteiras do debate institucional para atingir sua identidade de mulher, mãe e líder.
Sua presença no poder, como presidenta e depois vice-presidenta, revela mais que trajetória individual, expõe o uso político do sistema judicial, a força dos meios de comunicação como atores políticos e o papel das emoções no debate público. Cristina elevou o patamar do protagonismo feminino, mas, ao mesmo tempo, pagou o custo de desafiar pactos de poder historicamente masculinos.
Sua história é, antes de tudo, sobre legitimidade conquistada, atacada e defendida. Cristina não apenas ocupou o poder, ela desnudou os mecanismos que tentam barrar mulheres quando chegam ao topo.
Linha do tempo
1953 — Nasce em La Plata (Argentina)
1980 — Inicia carreira política no pós-ditadura
2007-2015 — Primeira mulher presidenta reeleita da Argentina
2019-2023 — Vice-presidenta
Dilma Rousseff: Quando a democracia estremece diante de uma mulher
A trajetória de Dilma Rousseff passa pelo núcleo mais duro da história política brasileira. Militante contra a ditadura civil-militar, presa e torturada, Dilma tornou-se símbolo da resistência e da expertise técnica ao ocupar ministérios e a Casa Civil antes de ser eleita, em 2010, a primeira mulher presidenta do Brasil. Não chegou ao Planalto como herdeira de oligarquias políticas, mas como gestora reconhecida e figura central na consolidação de políticas sociais e econômicas do período.
No governo, Dilma ampliou investimentos sociais, universidades e institutos federais, expandiu programas de combate à pobreza e adotou políticas de desenvolvimento industrial e energético. No entanto, enfrentou um ambiente político em combustão, crise econômica global, queda de commodities, polarização crescente e um Congresso hostil, onde o machismo não apenas existia de forma discreta, mas era usado ativamente como arma política.
O impeachment sem prova de crime tornou-se marco da política brasileira e referência internacional sobre o enfraquecimento institucional e o uso político do gênero. Dilma sofreu ataques violentos, sexualizados e humilhantes, reflexo de um país que nunca havia visto uma mulher ocupar o centro do poder e preferiu desmanchar o tabuleiro a conviver com isso.
Sua trajetória pós-Planalto — como presidenta do Banco dos BRICS — reforça sua dimensão histórica: mulher que enfrenta, cai, levanta e refaz caminhos. Dilma não foi apenas removida do poder; ela revelou como o poder reage quando percebe que pode ser transformado por uma mulher.
Linha do tempo
1947 — Nasce em Belo Horizonte (Brasil)
1960-70 — Militante; presa e torturada
2003-2005 — Ministra e chefe da Casa Civil
2011-2016 — Primeira mulher presidenta do Brasil
2023 — Presidenta do Banco dos BRICS
Michelle Bachelet: Democracia, memória e direitos humanos como projeto de país
Michelle Bachelet é a síntese do Chile moderno e de suas cicatrizes. Filha de general leal ao governo Allende, perseguida e torturada durante a ditadura Pinochet, refugiou-se no exterior e retornou ao país para reconstruir uma vida e uma nação. Médica, militante e figura progressista, ela não apenas chegou à presidência, como o fez duas vezes, em mandatos marcados por expansão de direitos sociais, políticas de igualdade de gênero e reformas educacionais.
Primeira mulher ministra da Defesa na América do Sul, Bachelet construiu liderança não pelo enfrentamento agressivo, mas pelo diálogo, empatia e simbolismo democrático. Sua figura representa o Chile que busca transformar seus traumas do passado em força para o futuro e que entende política como ferramenta de memória e de reparação histórica.
Após deixar o comando do país, Bachelet levou sua pauta para o mundo ao assumir o cargo de Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos. Ali, continuou seu trabalho pela defesa da democracia global, enfrentando regimes autoritários, denunciando violações e reafirmando que direitos humanos não são ideologia, são base civilizatória.
Bachelet é símbolo do poder que se fortalece sem abandonar a vulnerabilidade e a ideia de que mulheres não apenas ocupam espaços, mas redefinem suas regras e sentidos.
Linha do tempo
1951 — Nasce em Santiago (Chile)
1975 — Exilada após perseguição da ditadura
2006-2010 / 2014-2018 — Primeira mulher presidenta do Chile
2018-2022 — Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos
Depois delas, o continente não será o mesmo
Essas cinco mulheres mudaram a política latino-americana. Mas o que suas trajetórias revelam não é apenas o avanço institucional, é o choque entre democracia e patriarcado. Os números reforçam a magnitude do problema, em 2024, centenas de casos de violência política de gênero foram registrados, variando de ameaças a assassinatos. O panorama completo é mostrado abaixo:
Em 2024 o Ministério das Mulheres, em parceria com a UFSC, lançou projeto “Participação política e enfrentamento às violências de gênero e raça na América Latina e Caribe” de 12 meses, para mapear violência política de gênero na América Latina e Caribe, etapa inicial do ciclo: identificar mecanismos, padrões e dados.
Fonte: Ministério das Mulheres / UFSC — Projeto lançado (maio/2024).
No Brasil (2024), o serviço Disque 100 registrou 387 denúncias categorizadas como “violência política de gênero e contra as mulheres”, quase 70% das denúncias de violência política recebidas naquele período.
Fonte: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (comunicado Disque 100 — out/2024).
Resultado prático do mapeamento: em 11 de junho de 2025 foi publicado o Guia de Direitos diante da Violência Política contra Mulheres (UFSC/Ministério das Mulheres), orientações para prevenção, responsabilização e amparo jurídico.
Fonte: Guia UFSC / Ministério das Mulheres (PDF).
A visibilidade levou a mais cobertura e respostas institucionais: entre 2020 e 2024 houve aumento das notícias sobre violência política de gênero no Brasil, por exemplo, casos noticiados no mês anterior às eleições municipais, passaram de 29 em 2020 para 50 em 2024.
Fonte: Câmara dos Deputados — relatório De Olho Nas Urnas (2024).
Painel de dados: Números e tipos de violência política de gênero:
Total de casos (2024) — 558 casos de violência política (dados: 3ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, Terra de Direitos & Justiça Global).
Quebra por tipo (2024):
- Assassinatos: 27
- Atentados: 129
- Ameaças: 224 (40% do total)
- Agressões físicas: 71
- Ofensas públicas: 81
- Criminalizações: 16
- Invasões: 10
Fonte: Terra de Direitos / Justiça Global — 3ª edição (2024).
Em 2024, o Disque 100 registrou mais de 580 denúncias relacionadas à violência política; dentre elas, 387 foram classificadas como violência política de gênero e contra as mulheres (indicador introduzido em 2023).
Fonte: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (comunicado Disque 100, out/2024).
Dados comparativos:
- O número de notícias sobre violência política contra mulheres cresceu entre as eleições municipais de 2020 e 2024.
- No mês anterior à eleição: 29 matérias (2020) → 50 (2024)
- No mês das convenções partidárias: 13 (2020) → 28 (2024)
Fonte: Câmara dos Deputados — relatório De Olho Nas Urnas / Observatório da Mulher na Política (2024).
Relatórios regionais (OPAS) evidenciam que mulheres indígenas e afrodescendentes enfrentam formas agravadas de violência e que é necessário políticas específicas de prevenção e atendimento.
Fonte: OPAS — relatório / nota (4 dez 2024).







