Elas sustentam o país
Mulheres que chefiam lares, educam gerações e carregam, quase sozinhas, o peso do cuidado no Brasil contemporâneo
Publicado: 19 Fevereiro, 2026 - 11h19 | Última modificação: 19 Fevereiro, 2026 - 15h31
Escrito por: CNTE | Editado por: CNTE
“Quem sustenta o Brasil são as mulheres”. A frase, tantas vezes repetida, ganhou contornos estatísticos recentes. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.
O dado representa uma mudança estrutural na sociedade: cada vez mais, são elas as responsáveis não apenas pelo sustento financeiro, mas também pela condução emocional e organizacional da família. Muitas vezes acumulando jornadas duplas ou triplas de trabalho, dentro e fora de casa.
Esse fenômeno se reflete com força na escola pública, espaço em que mulheres que lideram seus lares também se tornam referências de cuidado, disciplina e resistência para centenas de estudantes. São educadoras que inspiram não só pelos conteúdos que ensinam em sala de aula, mas pela forma como conduzem a própria vida.
O retrato de um país em transformação
Segundo o IBGE, em 2012 o Brasil registrava 1,9 milhão de mulheres chefes de família casadas e sem filhos. Em 2024, esse número triplicou, chegando a 6,1 milhões. As mães solo já representam 30% do total da pesquisa. A concentração é maior no Sudeste, mas estados como Pernambuco despontam com índices ainda mais altos: 58% dos lares pernambucanos são liderados por mulheres.
Para a economista Cristina Vieceli, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), a tendência é resultado de mudanças demográficas e sociais: “O crescimento das famílias chefiadas por mulheres acontece tanto pelo aumento dos arranjos monoparentais femininos, quanto pela priorização das mulheres no recebimento de programas sociais como Bolsa Família e BPC. Culturalmente, elas são vistas como as principais responsáveis pelo cuidado e pela administração do lar”, explica.
Cristina Vieceli lembra ainda que essas mulheres estão mais expostas à pobreza de tempo — conceito que descreve a sobrecarga entre trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidados com filhos ou idosos. “As mulheres acumulam, em média, dez horas a mais de trabalho não remunerado por semana do que os homens. A presença de filhos ou dependentes amplia ainda mais essa diferença”, afirma.
De acordo com a técnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa, esse reconhecimento não é exatamente novo: as mulheres sempre foram referência na organização familiar. “O que mudou nos últimos anos foi a declaração formal nos censos e pesquisas, acompanhada pelo aumento da escolaridade, queda da fecundidade e maior participação feminina no mercado de trabalho. Atualmente, 58% das mulheres chefes de família são negras ou indígenas, e mais de 80% têm ao menos o ensino médio completo", afirma.
Ainda segundo Ana Luiza, enquanto os homens dedicam em média 10 a 11 horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos, as mulheres ultrapassam 22 horas — praticamente o dobro. Essa desigualdade reforça a sobrecarga e o estresse que acompanham a dupla e a tripla jornada.
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, reforça que a chefia feminina é parte de um processo mais amplo de mudança social: “O século XXI é o século das mulheres, porque elas vivem mais. Sociedades em que a expectativa é mais alta, como o Japão, uma população com 100 anos ou mais, quase 90% dela é formada por mulheres. Essa é a trajetória que o Brasil vai ter. Mulheres vivendo mais, porém sozinhas. O Censo 2022 mostrou que há uma expansão de pessoas vivendo sós", explica.
De acordo com dados do IBGE, a população cresceu 6,5%, mas o número de domicílios cresceu mais de 20%. “Alguns fatores estão relacionados a essas mudanças, como o isolamento da população. Também o que se entende como união familiar, casamento, e isso indica justamente uma outra sociedade na qual a gente ainda conhece relativamente pouco”, conclui Marcio Pochmann.
Quatro histórias que revelam a estatística
Se os números explicam a tendência, as histórias mostram sua concretude. Mônica, Juliana, Flora e Gercyjalda são exemplos de mulheres que sustentam suas casas e, ao mesmo tempo, dedicam-se à educação e à comunidade.
Mônica tem 38 anos e trabalha há mais de duas décadas na área da educação. Entre plantões, reuniões e atividades externas, a carga horária parece nunca terminar. Em casa, administra sozinha as contas, os cuidados com o filho adolescente e três animais de estimação. “Se não fosse pelo amor ao que faço, não estaria firme e forte. O meu sonho era ser veterinária ou trabalhar na área florestal. A faculdade era cara, então fui fazer contabilidade. Casei aos 20 anos e aos 21 fui mãe. Meu foco passou a ser dar qualidade de vida para o meu filho. Fui aprendendo aos trancos e barrancos, e aprimorando o serviço que eu me empenhei a realizar. Sei que sou a cabeça da casa, a última que bate o martelo. Mas também conto com o apoio do meu marido e do meu filho. Ainda assim, é cansativo. Muitas mulheres vivem a mesma realidade, e algumas ainda são mães solo que lutam para dar qualidade de vida aos filhos.”
Juliana, 37 anos, é professora de Artes e vice-diretora de uma escola de tempo integral no Rio Grande do Sul, e vive uma rotina semelhante. Com o marido desempregado desde que a empresa em que ele trabalhava fez demissões em massa e um filho de 7 anos que tem autismo e precisa de acompanhamento terapêutico, ela carrega sozinha a maior parte do sustento da família. “São 60 horas de trabalho na escola, além de toda a rotina da casa e dos cuidados com meu filho. Têm dias que sinto que vivo só apagando incêndios. A maior mudança pra mim foi assumir que, se eu não desse conta, ninguém daria. Hoje a carga de sustentação ficou quase toda em mim. Isso mexe muito com os sonhos, com a saúde e até com o jeito que a gente passa a se ver. Eu já sofri preconceito por ser a principal provedora, como se fosse estranho uma mulher assumir esse papel. Mas essa é a realidade de milhares de nós.”
Já Gercyjalda Rosa da Silva, de 70 anos, professora da rede estadual na Bahia e ativista na área de Igualdade Racial, também representa essa maioria. Pós-graduada em História, ela divide seu tempo entre o trabalho, reuniões e o Conselho de Alimentação Escolar. Em casa, mora com a filha, duas netas e uma bisneta, às quais ajuda a sustentar. “Administro muito bem o meu dia e me sinto feliz no que faço. Nunca senti preconceito em ser chefe de família, porém o maior preconceito é por ser mulher negra e do Candomblé. Nos últimos anos minha vida melhorou, adquirindo mais conhecimentos. Me sinto realizada como profissional, mãe e avó. Tenho fins de semana para descansar, viajar e interagir com amigos e familiares. Conheço muitas mulheres com histórias parecidas com a minha.”
A aposentada Flora Maria de Mattos traz outro olhar. Viúva desde os 48 anos, criou filhos e netos conciliando trabalho e vida doméstica. Hoje, aos 81 anos de idade, tem quatro filhos morando em sua casa (um sempre morou com ela por uma deficiência intelectual, dois se separaram e o outro ficou viúvo), além de netos e bisnetos que circulam diariamente. “Com a idade, minha rotina ficou mais leve. Gosto do que faço e sempre encontro tempo para mim. Mas sei que, ao longo da vida, precisei tomar as rédeas: pagar contas, comprar carro, organizar a casa. Aprendi muita coisa sozinha, indo atrás das burocracias. Eu tenho muitas amigas que viveram o mesmo depois de ficarem sozinhas.”
O peso e a potência da chefia feminina
A presença dessas mulheres à frente das famílias não se limita ao espaço privado. Como educadoras, trabalhadoras, gestoras escolares ou cuidadoras, elas transformam vidas para além dos próprios lares. Tornam-se referência para estudantes que as veem como espelho de força e resiliência.
O desafio, no entanto, é também estrutural. A economista Cristina Vieceli, do DIEESE, reforça a necessidade de políticas públicas que redistribuam a carga do cuidado: “Enquanto não houver medidas efetivas, como ampliação da licença paternidade e maior participação dos homens nas tarefas domésticas, as mulheres continuarão penalizadas com jornadas exaustivas. É preciso romper com a lógica cultural que coloca o cuidado apenas sobre os ombros delas.”
Já Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa, do Ipea, acrescenta que a recém-sancionada Política Nacional de Cuidados, em dezembro de 2024, é um passo importante para reconhecer o cuidado como um trabalho essencial e um direito de todas as pessoas. Mas a técnica de Planejamento e Pesquisa alerta: a sociedade ainda naturaliza o cuidado como uma responsabilidade feminina, o que perpetua desigualdades estruturais.
Um futuro que se constrói em sala de aula e em casa
Ao contar a história de mulheres que ensinam e sustentam, o Brasil também olha para o futuro. O dado de que mais da metade dos lares brasileiros são liderados por mulheres não é apenas estatística: é sinal de uma sociedade em transformação.
Entre provas corrigidas, reuniões pedagógicas, rotinas de trabalho, casa cheia, contas pagas e refeições improvisadas, Mônica, Juliana, Flora e Gercyjalda mostram que liderar um lar é também um ato pedagógico. Ensinar, afinal, vai além do currículo: é resistir, cuidar e transformar.
O preconceito com mulheres que chefiam os lares ainda é estrutural. Ele se sustenta em normas sociais que atribuem papéis rígidos de gênero. Apesar disso, a presença cada vez maior de mulheres liderando famílias e comunidades mostra que essa realidade está em constante mudança.